Série Colônia escancara o tamanho da nossa tolerância com tudo que é intolerável | Luta Antimanicomial

Esse final de semana, maratonei a Série Colônia, que estreia na Globoplay e no Canal Brasil no dia 25 de junho. Com a finalização dos capítulos, tive a oportunidade de conferir o resultado do brilhante trabalho que o diretor André Ristum fez livremente inspirado no Holocausto brasileiro. Deixei minha sobrinha de 15 anos assistir ao primeiro dos dez capítulos. A Gabi é uma adolescente muito antenada sobre o combate de tudo que tem a chancela do preconceito. Eu sempre brinco que ela é da geração das princesas que se salvam sozinhas. Foi muito emocionante ver o espanto dela diante de um trem de doido que transportava tudo que a sociedade queria esconder: homossexuais, meninas “perdidas”, negros, pobres, e até os chamados insanos. _ Tia, mas qual o motivo desse cara ter sido levado para lá. Só porque pensava diferente, ela perguntou, como se estivesse assistindo a algo que remetia a idade média. E o espanto dela foi aumentando a cada cena. Ao contrário do que ela pensava, expliquei que todas as atrocidades cometidas em nome da razão aconteceram ontem e não entre os séculos V ao XV. Aconteceram debaixo do nosso nariz e com a conivência da sociedade. E o que a série escancara é o tamanho da nossa tolerância com tudo que é intolerável. A eugenia encontrou nos manicômios o lugar ideal para a limpeza que tanto desejava. Na verdade, a busca pelo branqueamento social, a negação da nossa miscigenação étnica e a regeneração racial são questões debatidas ainda hoje. O Higienismo e a eugenia deveriam ser discursos caducos, porém eles não envelheceram. Para os pobres e os pretos o melhor lugar continua sendo aquele onde a vista não possa alcançar. Para os brancos improdutivos também e isso inclui os idosos. E a escala de exclusões segue longe. A história dos hospitais psiquiátricos foi construída em cima de perdas, de esquecimento, de separação, de invisibilidade. Já ouvi que os hospícios são o retrato da cultura de uma época. De fato, representam a imagem de tudo que nos faz sentir vergonha. Retratos são fragmentos da história. Conhecer a história nos salva do erro de repeti-la, nos livra das tentativas de justificar os abusos contra os mais vulneráveis. Cada narrativa traz consigo novos significados, porque nos oferece chance de criar novos olhares. Neste 18 de maio, mais um dia Nacional de Luta Antimanicomial, meu desejo é que a porta da história seja escancarada em prol da humanização do atendimento de pessoas com transtornos mentais. O princípio da Dignidade da Pessoa Humana é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz. Se gente tivesse aprendido a conjugar a palavra zelar em todos os tempos verbais, talvez conseguíssemos esperançar mais. Veja mais conteúdos como esse em: @daniela.arbex [gallery ids="2291,2292,2293,2294"]

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