Eu sou a lei

O  novo coronavírus tem trazido à tona todos os Brasis e, claro, os brasileiros que habitam neles. A crise em escala mundial que nos atingiu em cheio está mostrando do que somos feitos. Se por um lado somos definidos como um povo solidário, por outro, temos sido o pior exemplo de nós mesmos. O fato é que a pandemia que em tese nivelou a todos, deixando os pobres ainda mais vulneráveis, trouxe em seu bojo uma classe de brasileiros que não cogita sequer o risco de ser infectada porque se considera a melhor de nossa espécie. Gente que não precisa usar máscara de proteção porque está acima de qualquer probabilidade de contágio e que de tão superior ao resto dos mortais só consegue enxergar a si mesma. São os imunes a qualquer tipo de consideração pelo próximo ou pela saúde pública. No país dos fora da lei, eles se acham a própria lei. Que o diga o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, do Tribunal de Justiça de São Paulo. Cercado pelo que ele considera um bando de analfabetos, o homem que deveria ter postura digna de uma autoridade tentou em vão explicar a um guarda civil municipal que ele era ele. Confuso, achou que a rua era o seu tribunal e que a última decisão seria a sua. Ao humilhar o servidor que zelava pelo cumprimento de um decreto municipal, Almeida Prado Rocha de Siqueira tripudiou sobre todos nós. Mostrou como agem os que têm pouco apreço pelos outros, os chamados intocáveis. Já o guarda Cícero Hilário, que foi verbalmente agredido pelo desembargador, mostrou como se comportam os brasileiros de verdade. Sem se intimidar diante do cidadão cujo salário é mais de trinta vezes maior do que o seu, agiu como guardião da sociedade. Em sua defesa, Almeida Prado Rocha de Siqueira alegou que “decreto não é lei” e que, por isso, entende não ter a obrigatoriedade de usar a máscara. “Qualquer norma que diga o contrário é absolutamente inconstitucional”, afirmou. O desembargador, no entanto, ignorou não só o princípio básico de coletividade como rasgou, assim como fez com a multa que lhe foi aplicada, o ordenamento jurídico que ele diz conhecer tão bem. “Todos são iguais perante a lei”, diz a Constituição brasileira. Imagine o quão decepcionado ficará Almeida Prado Rocha de Siqueira quando descobrir que o artigo 5º da norma que define os direitos individuais e coletivos do nosso país também serve para ele. eu sou alei

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