Quem nós somos de verdade?

"Você pegou essa bike, não foi?...ESSA BICICLETA É MINHA!” Matheus Nunes Ribeiro, professor de surfe de 22 anos, estava esperando pela namorada na frente do Shopping Leblon, no Rio, quando foi abordado por um casal branco que o questionou sobre a posse de sua bicicleta, como se pessoas negras não pudessem ter uma. Ele não precisava, mas acuado, mostrou fotos antigas para confirma ser o dono da bike. Só conseguiu provar a posse, quando, sem autorização, o homem que o acusava de ter roubado aquela bicicleta tentou abrir o cadeado com a chave que tinha. É que o casal branco tinha sido vítima de furto e achou que poderia sair pela rua com o seu racismo a tiracolo para acusar pessoas negras que encontrassem no caminho. Matheus fez um boletim de ocorrência e contou que não era a primeira vez que tinha sofrido uma abordagem daquele tipo. A minissérie Olhos que condenam (Netflix), baseada em uma história real, mostra o episódio em que um grupo de meninos negros foi acusado injustamente de agredir e estuprar uma mulher branca que praticava corrida no Central Park, em Nova York (EUA). Eles passaram mais de dez anos na cadeia e só foram liberados após evidências de DNA comprovarem sua inocência. Um levantamento inédito no Brasil mostra que 83% das pessoas que são presas injustamente por reconhecimento fotográfico são negras (Condege). O que não é mero acaso. Um dos principais fatores para que pessoas negras sejam tratadas como suspeitas é o estereótipo de bandido. Corpos negros continuam sendo os principais alvos da violência no país. Por sorte, Matheus conseguiu gravar a acusação da qual foi vítima e o vídeo viralizou na Internet. Em 2020, as redes sociais foram palco da campanha #BlackLivesMatter (Vidas negras importam). O movimento gerou comoção, barulho, notas de repúdio. Na prática, porém, a cor continua sendo usada como justificativa para a criminalização da juventude negra e pobre. O ativismo digital é importante, mas quantas pessoas que pedem respeito na Internet agem com respeito no seu dia-a-dia? Quem nós somos de verdade?

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